Barulho de obra em rua no Itaim Bibi escapa ao Psiu
Publicado por Itaim WebO barulho da britadeira na tubulação de gás da Rua Doutor Mário Ferraz, no Itaim Bibi, zona sul de São Paulo, foi o primeiro a tirar o sono da família Haddad. Dias depois, veio uma máquina que fazia “pi, pi, pi” a noite toda para recapear a via. Indignados, eles reclamaram, mas foi em vão: as obras estavam autorizadas e o Programa de Silêncio Urbano (Psiu) da Prefeitura só pode autuar ambientes comerciais fechados por barulho.
Cabem à Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) a análise e a autorização de ocupação de vias para obras. E, quando a autorização é emitida, pelo Termo de Permissão para Ocupação de Vias (TPOV) o executor da obra é obrigado a seguir “as demais normas e legislações vigentes, especialmente a Lei do Silêncio”. Na prática, porém, o limite estabelecido pela lei para o período das 22h às 7h – 45 decibéis – é desrespeitado por concessionárias e pela própria Prefeitura, segundo moradores.
“O duro é não dormir a noite toda e ter de estar de pé às 6h30. Quem dá autorização não tem noção do barulho, é muito alto”, reclama a psicóloga Angela Haddad, de 51 anos, que mora num apartamento de quarto andar, com vidro duplo nas janelas. Seu marido, o engenheiro Emilio Haddad, de 60, chegou a descer várias vezes para falar com encarregados de obra e ir até a delegacia fazer boletim de ocorrência. “Pavimentar é bom e pode até ser de madrugada, desde que não faça essa barulheira toda. Sofro do coração e preciso dormir.”
Cerca de 3 mil autorizações de ocupação de vias são emitidas por ano. Do total, só 1% é para o período noturno. A CET diz que grande parte das obras feitas à noite é emergencial e, portanto, sem aviso prévio. Segundo a Prefeitura, as autorizações para obras são concedidas “mediante comprovação do interesse público”. Diz ainda que, para não prejudicar o trânsito e minimizar os transtornos à população, alguns serviços e obras em vias públicas são realizados “preferencialmente no período noturno”.
A arquivista Renata Bassetto, de 38 anos, também sofreu com o recapeamento da Rua Diogo Jacome, em Moema. “Acordei às 2 da manhã com um barulho infernal”, conta ela, que mora no sexto andar e não tem proteção acústica nas janelas. Assim como os Haddad, ela ligou para o Psiu. E foi informada de que queixas de barulho nas vias não são registradas pelo 156. “Disseram que como a obra era de interesse público eles não podiam fazer nada. Eu me senti desamparada.”
Em nota, a Prefeitura diz que, se houver “transtornos excessivos provocados pelos responsáveis pela obra, deve-se tentar um contato com a concessionária”, mas não detalha o que fazer quando a obra é de sua responsabilidade. Tanto Prefeitura quanto concessionárias têm ouvidorias. E a Polícia Militar (PM) atende casos de perturbação de sossego pelo número 190.
Moradores reclamam, no entanto, que, no fim das contas, só resta suportar o barulho. “A Lei do Silêncio existe, tem polícia, mas fica tudo por isso mesmo”, diz Emilio Haddad.
As concessionárias alegam só realizar obras nas ruas em horários determinados por CET e Prefeitura. Segundo a Sabesp, em muitos casos a CET não permite que serviços, mesmo emergenciais, sejam feitos de dia, por causa do impacto no trânsito. A empresa diz que procura sempre negociar com moradores, mas alguns serviços são “inadiáveis”. A Comgás afirma que em 70% dos casos os trabalhos são liberados apenas à noite, mas a empresa procura executar atividades que envolvam níveis de ruídos elevados antes das 22 horas. Já a AES Eletropaulo disse em nota que a maior parte dos serviços executados pela distribuidora ocorre durante o dia. Em caso de reclamações, “envia equipe para verificar as condições do local e equipamentos, a fim de minimizar transtornos”.